Em cada um reside a fonte da partilha, e seja ela um dom ou não, deixa-me semear no teu ser o prazer da Música. Ela tem inspirado o Homem no revelar o seu pensamento, o interpretar e sentir o Universo ao longo de milénios. Bem vindo!
27 de Novembro de 2014

"A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação." Fernando Pessoa

No "Gotinhas" desta semana, estas e outras novas que passaram.

A divulgar e assistir...

Feira de Artesanato no espírito do Comércio Justo! No Agrupamento de Escolas de Águas Santas - Maia Venha à nossa... Feira de Artesanato! Pode também participar expondo as suas criações pessoais numa pequena banca que lhe reservamos...

Fórum do Futuro 2014 De 23 a 30 de Novembro de 2014, na cidade do Porto, a primeira edição do festival internacional de pensamento Fórum do Futuro, organizado pelo Pelouro da Cultura da CMP em colaboração com a Casa da Música, o Museu de Serralves, a Universidade do Porto e o Teatro Nacional São João.

Agenda do Coliseu do Porto Esta semana O QUEBRA NOZES - Russian Classical Ballet28.11.2014 > 21.30 h MIGUEL ARAÚJO29.11.2014 > 22.00 h FREI HERMANO AO VIVO30.11.2014 > 18.00 h

E se os artistas plásticos tocassem cavaquinho? Júlio Pereira pediu a 70 artistas plásticos para transformarem 70 cavaquinhos em obras de arte. Conhecer para saber...? (pergaminho...)

O caso cada vez mais sério da electrónica portuense Já é impossível fazer uma radiografia completa da música electrónica nacional sem olhar para cima. Há cada vez mais projectos novos e jovens produtores, que usam referências e educações distintas para criar a sua própria identidade. Uma cena dispersa, mas caleidoscópica e entusiasmante.

Santuário do Sameiro nas mãos dele Com 18 anos, Sérgio Henrique Viana arrisca-se a ser o mais jovem organista português. Desde agosto que é o organista do Santuário do Sameiro e na Sé de Braga. É, também, diretor do coro da Paróquia da Sé.

Carmen Miranda: portuguesa, com certeza A identidade portuguesa dessa metralhadora sonora de turbante de frutas nunca foi amplamente reclamada ou celebrada em Portugal. O Real Combo Lisbonense traz Carmen Miranda para a música portuguesa. Temos baile.

Paco de Lucía reconhecido com o Grammy Latino para melhor álbum do ano Gabriela Carrasco, a viúva de Paco de Lucía,com os filhos. Receberam o Grammy latino a título póstumo Este é o segundo prémio póstumo que o artista vence, depois de "Canción Andaluza" conquistar também o título de melhor disco de flamenco.

António Jorge Gonçalves assina primeiro livro para a infância, 'Barriga da baleia' O ilustrador e cartoonista António Jorge Gonçalves publica este mês "Barriga da baleia", o seu primeiro livro para crianças, para leitores iniciais, cuja história já foi um espetáculo de teatro.

Romances de Hemingway em animações de 15 segundos A Fundação Ernest Hemingway, que se dedica a promover a vida e obra do autor americano com o mesmo nome, pensou numa forma de chamar a atenção dos jovens, para os romances de Ernest Hemingway.

A Amazónia salva das águas O terceiro taxista com quem falei disse que aquela chuva toda era vontade de deus, eu disse que era culpa do homem, ele rematou: -- E o que é que vamos fazer? Mas pelo menos levou-me ao Museu de Etnologia, coisa que não fizeram os dois primeiros na praça de táxis de Belém, o primeiro porque dizia que não sabia onde era, o segundo porque dizia que claro que o primeiro sabia, não queria era ir lá por ser uma corrida curta. Lisboa devia ponderar a importação de taxistas do Rio de Janeiro como terapeutas dos taxistas de Lisboa.

Ninguém ficará para ver tantas imagens A fotografia é um excelente exemplo da apropriação exaustiva do mundo pelo ser humano narcísico da contemporaneidade -- e uma das mais eloquentes formas de expressão do consumo imparável.

**** A divulgar e assistir...

Feira de Artesanato no espírito do Comércio Justo! No Agrupamento de Escolas de Águas Santas - Maia

Venha à nossa ... Feira de Artesanato no espírito do Comércio Justo! Pode escolher aqui lembranças originais para oferecer no seu Natal... Pode também participar expondo as suas criações pessoais numa pequena banca que lhe reservamos... Se quer participar como expositor contacte-nos pelo e-mail comerciojusto.aescas@gmail.com, até ao próximo dia 30 de Novembro. Sem mais a acrescentar, despedimo - nos com os melhores cumprimentos.

Fórum do Futuro 2014

Decorre de 23 a 30 de Novembro de 2014, na cidade do Porto, a primeira edição do festival internacional de pensamento Fórum do Futuro, organizado pelo Pelouro da Cultura da CMP em colaboração com a Casa da Música, o Museu de Serralves, a Universidade do Porto e o Teatro Nacional São João. Com convidados como o encenador Robert Wilson, os Pritzkers Jean Nouvel (pela primeira vez em Portugal) e Rafael Moneo, o prémio Nobel da Química 2004 Aaron Ciechanover, a artista plástica e teórica norte-americana Martha Rosler, entre muitos outros reputados convidados internacionais, o Fórum do Futuro constitui uma plataforma dedicada ao pensamento contemporâneo onde se debaterão assuntos relacionados com importantes desafios que o Futuro coloca a diversas áreas da ciência, das humanidades e das artes. No Teatro Municipal Rivoli, na Casa da Música, no Museu de Serralves e no Teatro Nacional de São João.

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Esta semana: O QUEBRA NOZES - Russian Classical Ballet28.11.2014 > 21.30 h MIGUEL ARAÚJO29.11.2014 > 22.00 h FREI HERMANO AO VIVO30.11.2014 > 18.00 h

E se os artistas plásticos tocassem cavaquinho? http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4254363

Júlio Pereira pediu a 70 artistas plásticos para transformarem 70 cavaquinhos em obras de arte. Uma pequena bailarina a girar devagarinho sobre um cavaquinho transformado em caixa de música - esta é a proposta da artista Joana Astolfi. Sofia Rebelo criou um cavaquinho gótico, Marta Madureira fez colagens em papel sobre madeira, João Barros Moura usou tricot, Gil Maia preferiu o pastel. No total são 70 os cavaquinhos que 70 artistas transformaram em obras de arte e que vão estar expostos, a partir de quinta-feira no antigo refeitório do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. A ideia partiu do músico Júlio Pereira, que é também o fundador, presidente e grande impulsionador da Associação Cultural Museu Cavaquinho, apresentada ao público no início do ano e já a trabalhar a todo o gás - pelo menos, tanto quanto é possível para uma associação sem fins lucrativos e sem funcionários, que vive do entusiasmo de todos os que gostam e trabalham com este instrumento.

Conhecer para saber...? (pergaminho)

O caso cada vez mais sério da electrónica portuense http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-caso-cada-vez-mais-serio-da-electronica-portuense-1676618

Já é impossível fazer uma radiografia completa da música electrónica nacional sem olhar para cima. Há cada vez mais projectos novos e jovens produtores, que usam referências e educações distintas para criar a sua própria identidade. Uma cena dispersa, mas caleidoscópica e entusiasmante. Das raves à noite da Ribeira Ludovic Pereira tinha uma banda de sludge. Virou-se para a música electrónica depois de ver Monolake, em Braga, e a partir daí "vendeu a alma ao diabo por panquecas e tecno". Diogo Tudela era do hardcore. Um dia ouviu os MSTRKRFT e aquela coisa do dance-punk "até pareceu fazer algum sentido" - depois seguiu outros caminhos e começou a embrenhar-se em explorações arqueológicas do som. Frederico Mendes era o Fidbek dos MatoZoo, mítico colectivo de hip-hop de Matosinhos. Entrou na electrónica quando se tornou MC do DJ/produtor Infestus e começou a ser presença habitual nas festas da Enchufada vestido de Nave Mãe. Jonathan Saldanha ouvia sobretudo música indiana na adolescência. Electronicamente falando, encontrou no dub e no jungle as deslocações de ritmo e "o desfasamento da realidade" que lhe interessavam nos sons do Norte da Índia. São referências distintas que fazem da electrónica portuense uma cena dispersa mas altamente caleidoscópica e entusiasmante. É impossível fazer uma radiografia completa da música electrónica nacional sem olhar a Norte. Cada vez mais: as editoras, os projectos e os produtores (muitos deles na casa dos 20) têm-se multiplicado nos últimos tempos, com a Internet a substituir os clubes como espaço de aprendizagens e encontros. Não se reúnem num movimento nem em filiações estéticas, mas partilham pontos de contacto e um chão comum: a vontade de transaccionar sons, batidas e samples de várias origens e enquadrá-los em estruturas de música electrónica (sejam elas mais próximas do house, do tecno, do dubstep ou do hip-hop); a vontade de experimentar para ver no que aquilo dá, sem se preocuparem com o vizinho do lado. E, claro, sem se limitarem a fronteiras locais e nacionais. A Con+ainer é disso exemplo. Criada com o objectivo de fazer a ponte entre o Porto, onde vive Ludovic Pereira, e Hamburgo, onde residem Fábio Fernandes e Fabian Eichstaedt, a editora começou a alargar horizontes logo nas primeiras edições. No primeiro ano, 2012, saiu Lisnave, o EP de estreia de Miguel Torga, alentejano residente em Lisboa que lançou há uns meses o precioso disco de estreia Hexágono Amoroso através de outra editora portuguesa, a Elements. E o portuense Bruno Deodato (Trikk), que editou o EP Wat U Do/ All This Time pela Con+ainer, está radicado em Londres e leva as suas reinterpretações ágeis e suculentas do house mais clássico a vários clubes europeus. Lançaram recentemente a compilação 2 Years of Con+ainer, que assinala os dois anos de actividade da editora e congrega produtores por esse mundo fora, descobertos por Ludovic (nome de código: Cloche) em noitadas no Soundcloud. A edição, disponível on-line, dá a ouvir house e tecno de possibilidades atípicas e junta ingleses, alemães e japoneses a produtores do Porto como Ludovic, Dupplo, Voxels ou LASERS. Um dos pontos altos de 2 Years of Con+ainer é a electrónica imersiva e multi-sensorial de LASERS, um dos novos produtores portuenses a que devemos fazer marcação cerrada. João Lobato parece ter sempre a beleza do seu lado. Ouça-se o EP homónimo editado em 2012 pela Bad Panda Records: Lobato pega em samples, linhas de sintetizadores e batidas fragmentadas de dubstep, hip-hop e house, suavizando-os e fazendo-os deslizar em mantos de electrónica orgânica e luzidia, com melodias afectivas que fazem lembrar Gold Panda, Shigeto ou Toro y Moi (sim, há ali traços de chillwave). Começou a tocar ao vivo lá fora, incluindo na Holanda, onde viveu e deu forma a LASERS. Está de regresso ao Porto mas admite que a sua música "tem tido mais validação internacional". Entre Porto e Londres A 1980 é outra jovem editora entre cá e lá. Foi criada há uns meses por Frederico Mendes (conhecido como DJ Nave Mãe e como o Fidbek dos defuntos MatoZoo), no Porto, e Ivo Fontão (o produtor Tugalife), em Londres. Tudo sem grandes ambições, confessa Frederico. Queriam virar costas às modas e editar "aquilo de que gostavam" - o que, por acaso, não resultou nada mal, como prova a compilação Lyfers, o cartão de apresentação da 1980. "A Rita Maia [DJ portuguesa radicada em Londres com um programa de rádio na influente Resonance FM] tem passado os temas da editora e diz que as reacções são óptimas", conta Frederico. É música em que os beats estão no centro do jogo, mas são driblados em encruzilhadas difusas: ouvem-se o dubstep subaquático do portuense Dubout, o tecno-jungle mutante e analógico de José Acid (o outro projecto do lisboeta Shcuro), o dub voodoo e de arquitecturas em constante ressonância de Spaced Out (Maze, dos Dealema), ou o house old-school de fisicalidade sublimada pela bass music e pelo breakbeat dos Unfixed & Broken, que se estrearam pela 1980 com o EP Your Woman, elogiado por figuras como o veterano Richie Hawtin. A dupla composta por Pedro Maurício e Miguel Tavares tem uma residência bimensal no Café 1001, concorrido clube de Brick Lane, uma das zonas culturalmente mais relevantes de Londres. São mais um caso de produtores portuenses que se instalaram na capital inglesa, como fizeram os amigos Bruno Deodato (Trikk), Ivo Pacheco (IVVVO) e Luís Dourado (Purple, agora a residir em Berlim). Três nomes ligados à editora Terrain Ahead, que continua a ser mantida no Porto por Tiago Carneiro (Solution), um dos DJ/ produtores mais interessantes da cidade, sobretudo no que toca ao tecno denso e exploratório mas com propulsão rítmica para a pista de dança. "O formato e a estética editorial" da Terrain Ahead vão ser redesenhados, adianta Tiago, e para breve está o lançamento de uma série de EP guardados na gaveta. O primeiro a chegar é o de Twerz, um obscuro produtor britânico de tecno espartano e construtivista.

Santuário do Sameiro nas mãos dele http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=4252793

"Obriga a muito trabalho e a um estudo continuado, mas quem anda por gosto não cansa", afirmou, ao JN, o jovem, natural da cidade de Braga, mas a viver em Prado, Vila Verde. Começou a tocar órgão de tubos aos 14 anos, com o professor José Carlos Azevedo e, desde então, sempre de forma particular, continua a ter aulas e a fazer "masterclasses" para conhecer "cada vez melhor" os instrumentos que existem em muitas igrejas nacionais, mas que pouca gente sabe tocar.

Só na diocese de Braga, cerca de meia centena de templos têm órgãos de várias formas e tamanhos. "O único órgão moderno que existe no Norte está na igreja de Joane, em Vila Nova de Famalicão, e foi importado da Alemanha. Todos os outros são antigos ou construídos tendo como modelo os órgãos antigos". O órgão da Sé é o preferido de Sérgio. Começou a ser construído em 1737 e ficou pronto em 1939. É conhecido em todo o Mundo por ser um ícone do estilo barroco. "É extraordinário tocar na Sé porque todo o ambiente é extraordinário", revelou o organista. Com 18 anos, fica "doente" quando vê outros músicos a tocar no órgão da Sé "como se estivessem a tocar piano". "Ensaio num órgão histórico, não o posso estragar nem danificar com experiências musicais como vejo algumas pessoas a fazer. É o nosso património que está em causa. Temos de ensaiar nos órgãos que existem, que são todos históricos, mas com a firme consciência de que estamos a trabalhar com pérolas". Turistas merecem Desde que a entrada na Sé de Braga é paga, Sérgio Viana tenta ensaiar o maior número de vezes possível no órgão da Sé: "Penso que é uma prenda que ofereço aos turistas que pagaram para visitar a Sé. Além de apreciarem o monumento, podem escutar a beleza da música tocada num órgão que, também ele, é conhecido no Mundo inteiro".

Carmen Miranda: portuguesa, com certeza http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/carmen-miranda-portuguesa-com-certeza-1676701

Quem é Carmen Miranda? Em Xabregas, um antigo bairro de operários na zona oriental de Lisboa onde a tinta branca de velhos slogans políticos ("SÁ CARNEIRO PARA A RUA") ainda não desbotou completamente, o portão de um armazém ao lado de uma serralharia civil está entreaberto. É melhor fechar a porta agora?", pergunta alguém. "Uma praça de touros quer-se de porta aberta", responde João Paulo Feliciano. Ninguém suspeitaria que aqui dentro se está a gravar um disco, muito menos um disco de canções de Carmen Miranda. Três homens às voltas com um tema que nem sequer é um samba, mas uma marcha mariachi bem-humorada, Touradas em Madri - daí a referência tauromáquica. A música e as vozes de base já foram gravadas e dois dos membros do Real Combo Lisbonense gravam agora vozes adicionais: onomatopeias como "pararatim bum bum bum" e "olé". É uma terça-feira de Julho, 28 graus que sobreaqueceram o estúdio da Pataca Discos, uma sauna, mais quente do que na rua. Rui Alves está em tronco nu frente ao microfone, João Paulo Feliciano transpira na régie envidraçada, dedo em riste, a esgrimir o ar como um condutor de orquestra. Rui Alves e Ian Mucznik, que estão a fazer coros para a canção, entram na régie para ouvir o resultado. "Os olés já estão a ficar bons", diz João Paulo Feliciano. "Tem de ser mais. Tem de ser uma plateia", diz Rui Alves. Em Junho de 1939, quando Carmen Miranda se estreia na Broadway, dando início à sua fase americana, o almirante Gago Coutinho - herói da aviação portuguesa que, com Sacadura Cabral, realizou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, de Lisboa ao Rio de Janeiro, em 1922 - foi recebido pela cantora brasileira. Ao saber que ela tinha nascido em Portugal, perguntou-lhe: "Portanto, minha filha, porque é que não canta um fado ou um vira, em vez de sambas? E em vez de O que é que a baiana tem?, por que é que não canta O que é que a m'nina do Minho tem?" Este encontro é contado em Carmen, do jornalista e escritor brasileiro Ruy Castro, considerada a biografia definitiva sobre a cantora. Foi esse livro que no Natal de 2012 veio parar às mãos de João Paulo Feliciano, uma prenda de uma amiga vinda do Rio de Janeiro, ainda por cima autografada pelo autor. "João Paulo, meu irmãozinho em Carmen", escreveu Ruy Castro. "É possível cantar Carmen Miranda em português com muita naturalidade. A matriz portuguesa está lá. Não seria possível fazer isso com a Gal Costa ou com a Maria Bethânia" João Paulo Feliciano Carmen Miranda, a metralhadora sonora de sorriso voraz e turbante de frutas, nasceu em 1909 numa aldeia de Marco de Canavezes, de onde partiu aos dez meses de idade para o Brasil, num barco a vapor, sem nunca mais ter voltado a Portugal. A sua identidade portuguesa nunca foi amplamente reclamada ou celebrada em Portugal - aliás, é o Brasil que continua a alimentá-la (Caetano Veloso, com a sua canção-tributo Marco de Canaveses, e os turistas brasileiros que vão a Várzea de Ovelha ver a casa de pedra onde Carmen nasceu). Num pequeno texto escrito para o disco que é lançado na segunda-feira,, Saudade de Você - Real Combo Lisbonense às voltas com Carmen Miranda, Ruy Castro escreve que "dos três países em que se deu a sua biografia" - Portugal, Brasil e Estados Unidos, "onde se consagrou internacionalmente" - "o que menos beneficiou de sua existência foi... Portugal". Mas Carmen "não precisa de voltar a ser portuguesa", avisa Ruy Castro, porque "nunca deixou de o ser". Algumas das canções de Saudade de Você mostram isso mesmo: Absolutamente soa como uma marcha dos santos populares. "Se fores dá-la a ouvir a uns senhores aí fora, vão achar que isto é português", resume João Paulo Feliciano, 51 anos, ideólogo e fundador da big band que é o Real Combo Lisbonense. No disco tanto se canta em português do Brasil como em português-português, e nada disso soa forçado. "Dada a forma como a Carmen Miranda tratava a língua e as pronúncias e brincava com isso tudo, acho natural que neste disco se cante em português e em brasileiro", diz João Paulo Feliciano. Como Ruy Castro nota na sua biografia, o Rio em que Carmen viveu era "tão português quanto a terra de onde tinha saído - talvez mais. Numa população de cerca de um milhão, o Rio tinha perto de 200 mil portugueses - muito mais do que o Porto, cuja população era de 150 mil".

O Real Combo Lisbonense captura a graça e a vivacidade que Carmen Miranda punha ao serviço das suas canções Ler crítica Nos anos 30, quando Carmen começa a sua carreira como cantora, "o brasileiro tinha coisas mais parecidas com o português ao nível da pronúncia do que agora", diz João Paulo Feliciano. "O que faz com que seja possível cantar músicas da Carmen Miranda em português com muita naturalidade. É quase como uma matriz portuguesa que está lá. Não seria possível fazer isso com a Gal Costa ou com a Maria Bethânia." Além disso, a música de Carnaval nessa época era dominada pelas marchinhas, muito mais do que pelos sambas. E as marchinhas, nota João Paulo, "são mais próximas do universo português das bandas filarmónicas e da marcha militar". Mas apesar de o disco pôr em evidência essa "matriz portuguesa", ele não se fica por aí. O universo musical é bastante aberto, sem nunca ameaçar a coerência. Paris é um swing francês, Saudade de você tem o balanço de uma morna de Cabo Verde, quem conhecer Na baixa do sapateiro nas versões de João Gilberto ou Caetano não está preparado para os sopros à la Lounge Lizards que o Real Combo Lisbonense injectou na canção (e, no entanto, quem for ouvir o original gravado por Carmen Miranda irá perceber que já lá estava tudo). Saudade de Você permite descobrir uma Carmen Miranda que não conhecemos, duplamente: graças a essa amplitude musical que actualiza o seu reportório, sem se desviar dele; e porque dispensa temas mais óbvios - como O que é que a baiana tem? ou South american way - para se concentrar numa Carmen Miranda menos conhecida. Uma epifania Em Junho deste ano, o Real Combo Lisbonense deu um concerto único no anfiteatro ao ar livre do jardim da Gulbenkian dedicado a Carmen Miranda. O alinhamento está pendurado no estúdio da Pataca Discos em Xabregas, junto a posters da cantora. O disco foi gravado depois do espectáculo, um processo inverso ao que é habitual. Mergulhar no universo de Carmen Miranda não foi simples nem imediato para uma super-banda com membros que vêm sobretudo do rock. "Ninguém vem do samba. Isso era um dos desafios e das dúvidas à partida para este projecto", resume João Paulo Feliciano. O Real Combo Lisbonense nasceu em 2009 como um grupo de baile apostado em recuperar o património perdido da música portuguesa dos anos 50 e 60, à semelhança do que a Orquestra Imperial vinha fazendo nos últimos anos no Brasil. O primeiro EP da banda foi editado em 2009, com temas que tinham sido gravados por Simone de Oliveira e Mário Simões. Em 2011 começaram a gravar um segundo disco que nunca chegou a ser terminado - e, entretanto, a biografia de Ruy Castro vai parar às mãos de João Paulo Feliciano, que pesquisa a música da cantora no iTunes e tem uma pequena epifania: gravar Carmen. A procura de uma abordagem própria demorou um ano, com ensaios regulares da banda quase todas as semanas. Dias depois do concerto na Gulbenkian, a banda gravou o disco em dois dias no estúdio da Pataca. A rapidez do processo teve a ver com o trabalho que estava para trás de uma banda que já tinha ensaiado muito para apresentar-se ao vivo. "Existia uma memória. E sobretudo uma memória afectiva porque o concerto da Gulbenkian tinha corrido bem e estava fresco", explica João Paulo Feliciano. "Era importante não perder essa espontaneidade." A gravação foi feita com cerca de 20 a 24 microfones em estúdio, o que é inédito na história da Pataca Discos. Isso sem contar com os overdubs, gravados depois. Alguns temas chegam quase a ter 40 pistas de som - pura filigrana musical. "O disco é bem complicado. A música não é simples. Tem muitos pormenores, muitos elementos, e esses elementos têm de jogar todos. O que é complicado é fazer com que essa riqueza das vozes, das percussões, dos acompanhamentos, do que entra e do que sai, não se atrapalhem umas às outras", diz João Paulo Feliciano. "Há muitas variáveis, muitas hipóteses de fazer aquilo soar de maneira diferente." Outros membros do Real Combo Lisbonense chegam entretanto para ajudar nos coros e nas percussões adicionais: João Pinheiro, baterista (também baterista dos Diabo na Cruz) e David Santos, baixista. Para a canção Na baixa do sapateiro, gravam-se três takes: um só de palmas, outro com afoxé (cabaça) e mais um com flexatone e brinquinho da Madeira (bonecos de madeira com castanholas às costas) a serem tocados ao mesmo tempo. Se há um comboio no disco, não demos por ele. "Todos os discos da Pataca têm um comboio." O estúdio fica mesmo ao lado da linha ferroviária que liga Santa Apolónia à estação do Oriente. "Já é uma marca: o número de comboios que cada música tem." Mas não este comboio que está a passar agora. "Pára. É um comboio bué da alto", diz Rui Alves para a régie. Despersonificar Saudade de Você não é derivativo nem uma imitação de Carmen Miranda. As vozes femininas são três: Ana Brandão (também actriz), Joana Campelo (também actriz) e Margarida Campelo (também instrumentista ligada ao jazz). As duas últimas só muito recentemente passaram a integrar o Real Combo Lisbonense. "O facto de serem três cantoras reforça uma coisa importante para mim - autonomizar este trabalho como uma coisa do Real Combo Lisbonense", diz João Paulo Feliciano. "Não é uma recriação da Carmen Miranda, não é um music-hall da Carmen Miranda, não encarna a Carmen Miranda. O facto de serem três despersonifica porque não podes dizer quem faz de Carmen Miranda. Todas elas fazem." Em Agosto, João Paulo Feliciano levou as gravações para para o Alvito, no Alentejo, para fazer as misturas finais com o engenheiro de som Luís Nunes (cujo alter-ego musical é Walter Benjamin), que comandara a gravação. Depois de quatro anos em Londres, Luís Nunes, que se parece com um jovem Joe Cocker, fixou-se no Alvito, onde os pais têm uma casa, e montou um estúdio no sótão (com uma rede de descanso suspensa atrás da mesa de mistura). É aí que ele e João Paulo estão a trabalhar nas misturas finais do disco, a janela aberta para a Praça da República, engalanada com flores de papel de seda e um pequeno palco, resíduos de uma festa popular recente. Ouvindo Saudade de Você é fácil imaginar o Real Combo Lisbonense a dar um baile naquele mesmo lugar. Luís Nunes tem uma visão. "Este disco faz-me lembrar aqueles discos gravados na Capitol. Os discos do Frank Sinatra gravados com orquestra. Era isso que eu estava a imaginar. Um disco clássico. É como se tivéssemos ido todos num avião até L.A. e gravado lá." E, virando-se para João Paulo: "Não achas?" Mas apesar de tudo soar bem enquanto faziam as misturas no Alvito, quando voltou para Lisboa com elas e as mostrou ao irmão Mário, que também integra o Real Combo Lisbonense (os créditos que se lhe são atribuídos no disco incluem "ouvidos e sentido crítico"), aperceberam-se que as canções pareciam ter "uma película por cima". "O Luís usa mais reverb [reverberação, para criar a ilusão de espaço na música] do que eu. Os sopros com mais reverb parece uma coisa mais orquestral. Quando eu lhe dizia para pôr menos reverb, ele dizia: 'Mas isso soa a corneta, tipo baile, e menos Capitol.' Mas o som precisa disso", explica João Paulo Feliciano. As misturas finais acabaram por ser feitas em Setembro no estúdio da Pataca, com Tiago de Sousa. "É como no futebol. A equipa é a mesma. Mas de vez em quando mudas o ponta de lança", nota João Paulo. "Aconteceu com o Tiago no disco dos You Can't Win Charlie Brown [outra banda da família Pataca Discos]. O Tiago ligou ao Luís: 'É a paga!'" Além disso, nem todo o trabalho de edição e limpeza feito no Alvito se perdeu, diz. Como é que alguém que é sobretudo artista plástico e vem do rock conceptual - João Paulo Feliciano fez parte dos Tina and The Top Ten e tocou com os Sonic Youth - se entusiasma com um património tão clássico? "Apesar da minha prática musical ser nesse território, o meu consumo e experiência musical nunca se resumiu a isso. Desde miúdos que eu e o irmão íamos aos bailes populares nas Caldas da Rainha", diz João Paulo Feliciano. "O primeiro grupo em que toquei era um conjunto de baile, Nova Geração. Tinha 16 anos. Mas claro que já tinha a minha guitarra eléctrica. O que eu curtia era tocar solos e pôr amplificadores muito alto e tocar rock." O Real Combo Lisbonense apresenta o disco ao vivo no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 13 de Dezembro, e no Teatro Ibérico em Lisboa, a 17 e 18. Teremos baile.

Paco de Lucía reconhecido com o Grammy Latino para melhor álbum do ano http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4253117

O guitarrista espanhol Paco de Lucía, falecido em fevereiro de 2013, foi reconhecido na quinta-feira a título póstumo com o prémio de melhor álbum do ano para o disco "Canción Andaluza" nos Grammy Latinos, em Las Vegas. Este é o segundo prémio póstumo que o artista vence, depois de "Canción Andaluza" conquistar também o título de melhor disco de flamenco, e o quarto da sua carreira, após os triunfos em 2012 e 2004 com"En Vivo Conciertos España" e "Cositas Buenas", respetivamente.

António Jorge Gonçalves assina primeiro livro para a infância, 'Barriga da baleia' http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4251250&seccao=Livros

O ilustrador e cartoonista António Jorge Gonçalves publica este mês "Barriga da baleia", o seu primeiro livro para crianças, para leitores iniciais, cuja história já foi um espetáculo de teatro. Em Barriga da baleia, com selo da Pato Lógico, o autor leva o leitor a acreditar na história de Sari, uma menina que um dia fugiu de casa rumo à praia e acabou engolida por uma baleia. Foi salva por Azur, um amigo com quem tinha planeado partir para a terra-onde-nunca-ninguém-se-aborrece. António Jorge Gonçalves, Prémio Nacional de Ilustração 2013, explicou à agência Lusa que começou por contar esta história à filha Miranda - "tal como outros pais que têm de inventar histórias para os filhos" -, mas acabou por utilizá-la num espetáculo de teatro, a convite do Teatro Maria Matos. O autor não tinha no horizonte fazer um livro para crianças, por "não saber bem para quem estaria a falar", mas com o nascimento da filha isso mudou. Numa leitura imediata, Barriga da baleia remete para obras como Moby Dick (Herman Melville), Pinóquio (Carlo Colllodi) ou até mesmo para Onde vivem os monstros (Maurice Sendak), mas António Jorge Gonçalves afirma que sempre teve simpatia pela ideia da barriga da baleia, pelas múltiplas referências bíblicas e da mitologia polinésia. Barriga da baleia aborda implicitamente temas como o medo, o desejo de descoberta, a capacidade de imaginar e fantasiar, a relação pais e filhos e a presença da natureza como "agente de grande transformação".

Romances de Hemingway em animações de 15 segundos http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4252214

A Fundação Ernest Hemingway cativa jovens para lerem romances clássicos do escritor. A Fundação Ernest Hemingway, que se dedica a promover a vida e obra do autor americano com o mesmo nome, pensou numa forma de chamar a atenção dos jovens, para os romances de Ernest Hemingway. O desafio enfrentado pela fundação foi cativar os jovens, que nesta geração têm cada vez menos tempo. Uma vez que, estes vivem para os múltiplos dispositivos digitais, o Instagram foi a solução. Ogilvy & Mather Chicago e o diretor Eduardo Cintron criaram um video de animação com 15 segundos do "Farewell to Arms","The Old Man and the Sea" e "For Whom the Bell Tolls". Cada um usa um estilo de animação distinto dependendo do cenário do romance, do enredo e das personagens. Os mini-livros podem ser vistos no instagram da fundação estimulando os utilizadores a lerem os livros reais. Ernest Miller Hemingway, escritor norte-americano, trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola. Esta experiência inspirou uma das suas maiores obras. Em 1953, ganhou o prémio Pulitzer, e em 1954, ganhou o prémio Nobel da Literatura. Suicidou-se em 1961.

A Amazónia salva das águas http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-amazonia-salva-das-aguas-1676987

O terceiro taxista com quem falei disse que aquela chuva toda era vontade de deus, eu disse que era culpa do homem, ele rematou: -- E o que é que vamos fazer? Mas pelo menos levou-me ao Museu de Etnologia, coisa que não fizeram os dois primeiros na praça de táxis de Belém, o primeiro porque dizia que não sabia onde era, o segundo porque dizia que claro que o primeiro sabia, não queria era ir lá por ser uma corrida curta. Lisboa devia ponderar a importação de taxistas do Rio de Janeiro como terapeutas dos taxistas de Lisboa. Além da simpatia, que é quase amor, são veteranos desta chuva. Na véspera, o director do museu, Joaquim Pais de Brito, avisara-me de que andavam a acartar baldes de água. Quando o taxista crente em deus me largou frente ao museu, chovia como na véspera, e o pote colocado no átrio já estava cheio. Seguindo pelos corredores, havia de facto um balde e recipientes compridos. "São bacias de revelação fotográfica", explicou Pais de Brito, desolado. Aproveitaram o que tinham à mão para conter a água das goteiras espalhadas pelo museu. Há 15 anos houve obras de ampliação, mas a tela dos tectos tem aberto frechas onde se concentra a água, que vai corroendo o material. Em alguns pontos há já buracões no tecto. O mais grave é chover nas reservas. Só a da Amazónia, aberta ao público mediante visita guiada, até agora escapou. Pais de Brito conta que quando António Hespanha era presidente da Comissão dos Descobrimentos, e lhe perguntou o que seria possível fazer com o Brasil no museu, surgiu a ideia de uma exposição sobre índios. Aconteceu em 2000 e chamou-se Índios, Nós, com a colaboração de antropólogos brasileiros e vários tribos. -- A participação dos índios foi muito importante. Mais de 200 peças foram reunidas para o efeito, mas havia muitas mais para mostrar. Disto resultou, em 2006, uma galeria nos subterrâneos do museu dedicada à Amazónia. É por isso que Pais de Brito diz: -- Vou à frente porque aqui são as tripas. Descendo, descendo. Abre-se uma porta trancada. Da escuridão lampejam olhos, saias de palha, máscaras xamânicas. Quando as luzes se acendem nas vitrinas, é toda uma fileira encarando quem entra. Estamos perante um vestígio dos Wauja, tribo do Xingu onde o antropólogo brasileiro Aristóteles Barcelos Neto passou meses, e de onde trouxe uma colecção para o Museu de Etnologia. Basicamente, esta galeria da Amazónia cruza duas grandes colecções, a de Aristóteles entre os Wauja do Xingu, recente, e a que o viajante e etnólogo autodidacta Vítor Bandeira trouxe de vários pontos da Amazónia em 1964-65. A colecção de Aristóteles tem mais de 500 peças e praticamente todos os objectos têm o nome do autor, que antes era apagado -- explica Pais de Brito. Gerou-se uma intimidade [entre o antropólogo e os membros da tribo]. E pensei logo em fazer uma reserva visitável. Neste ponto da conversa ainda mal começámos a circular entre as vitrinas, o que é um estranho passeio para quem já esteve na Amazónia e viu muitos destes objectos em movimento nas próprias tribos. O que há de estranho é eles estarem imobilizados dentro de caixas de vidro: o nível de concentração e de imobilidade. Um museu é um lugar estranho quando conhecemos os vivos de onde os vestígios vêm. O avesso deste pensamento é que, assim, quem não pode ir à Amazónia tem algo da Amazónia. E o avesso do avesso é que talvez não seja possível ter a Amazónia fora da Amazónia. A galeria abrange 40 tribos, "até aos Jívaros, a cair para o Peru". Ao fundo da sala, libertas das vitrinas, estão as máscaras maiores, fabulosas, algumas ainda antes de perderem os seus vermelhos, tingimentos que o sol e o tempo apagam. Variam muito de tribo para tribo, por exemplo, as que Vítor Bandeira trouxe dos Tukano e dos Tikuna nos anos 60 parecem quase de pano, entrecasca de árvores batida ao ponto de parecer tecido, pintado com pigmentos minerais e vegetais. Mais de 40 máscaras trazidas por Aristóteles foram feitas para um ritual induzido pelo próprio antropólogo durante a sua estadia, explica Pais de Brito.

Ninguém ficará para ver tantas imagens http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ninguem-ficara-para-ver-tantas-imagens-1676784

A fotografia é um excelente exemplo da apropriação exaustiva do mundo pelo ser humano narcísico da contemporaneidade -- e uma das mais eloquentes formas de expressão do consumo imparável. Em determinado momento de Tristes Trópicos, Lévi-Strauss diz que "o mundo começou sem o homem e terminará sem ele". Esta frase poderá ser medonha para o ser humano narcísico contemporâneo. Ele é aquele que, na posse de todas as tecnologias existentes, não apenas se julga a razão de ser da criação como equaciona já a sua própria eternidade. Isto, claro, enquanto sobrevivente do mundo que ele próprio vem destruindo. (Curioso como ele não se importa de destruir o seu mundo e ir ocupar outros mundos no recém-estreado filme Interstellar, de Christopher Nolan.) A frase de Lévi-Strauss será medonha na medida em que ameaça esse ultra-narcisismo dos seres que ocupam apressada e vorazmente todo o espaço em volta. Porém, a clareza e a objectividade daquela frase podem provocar outras reacções. Uma reacção de inactividade, de tipo letárgico, que se traduz na atitude de, perante os factos, achar que não há nada a fazer, que nenhum esforço é merecido, que não vale a pena qualquer intervenção ou compromisso com o mundo. Ou uma reacção de voracidade. Ora, a fotografia é, na actualidade, um excelente exemplo dessa apropriação exaustiva do mundo que é também, ao mesmo tempo, expressão do consumo imparável. Saltemos o tempo em que a fotografia implicava uma produção complexa, exigia um enorme domínio da tecnologia e era um objecto de raridade, olhada como a actividade que tinha ousado atentar contra a suprema habilidade da pintura. Saltemos também os dilemas de Walter Benjamin sobre a possível perda da aura da obra de arte, dada a sua reprodutibilidade possível e infinita. Hoje, a par de uma minoria de fotógrafos que recorrem à metodologia da "antiga fotografia" e que são uma espécie de artesãos da imagem, basta a qualquer utilizador de telemóvel reclamar-se fotógrafo para ser como tal reconhecido por um número excessivo de pares que o incensam com um simples like nessa função. E dado que as redes sociais impõem a quantificação como critério supremo de classificação, eis que uma imagem vulgar pode ter centenas de milhar de likes e uma fotografia de autor não ter direito a qualquer like. Dir-se-á que, ainda assim, com certeza haverá uma diferença entre estes fotógrafos de impulso e os fotógrafos profissionais; estes últimos têm, antes da fotografia, um pensamento sobre a fotografia (que por vezes justifica alguma lentidão no processo de produção). Mas estes são os poucos fotógrafos crentes, que ainda vivem a fantasmagoria da imagem, aquela que provoca o sentimento de ausência, de desejo, de fantasia. De resto, concordemos: os resultados são muito semelhantes. Entre os milhões de fotografias feitas por impulso e os milhares de fotografias produzidas por profissionais e expostas em feiras, bienais, websites, livros, há uma semelhança de atitude -- e, até, alguma continuidade. A continuidade vem quer dessa incontinência de clicar, quer porque qualquer fotografia devolve ao observador o facto de ela resultar da interrupção de um momento e do seu consequente aprisionamento dentro de quatro margens. Em cada uma delas pode estar o desejo de ser continuada para lá dessas margens, de poder conter um enquadramento em expansão permanente. Assim, tanto nas feiras de fotografia como no rolar das imagens no iPhone ou no tablet está presente e subentendido um exercício: colar pelas margens todas as fotografias do mundo, criando como que um mapa universal onde todas as subjectividades estivessem contidas. Trata-se de um paradoxo, é certo, porque nesta compulsão de produzir tantas imagens não está presente outra coisa se não a predação continuada do mundo e o desejo de imortalidade. À medida que crescem exponencialmente os auto-retratos, os famosos selfies, mais sentido faz a afirmação de Joan Fontcuberta -- "Eu fotografo. Eu existo!" -- e mais esta projecção narcísica se expande por todo o espaço em redor: "Acentuou-se a necessidade de capturar tudo e tudo pode ser fotografado -- e, mais ainda, tudo pode ser mostrado... As fotografias transformaram-se em expressões de vitalidade, experiências que são transmitidas, partilhadas e depois desaparecem mental e fisicamente" (Joan Fontcuberta, em Pandora's Camera). Este autor e fotógrafo não tem uma visão necessariamente pessimista da fotografia digital, até porque ela permitiu que o horror dos prisioneiros de Abu Ghraib fosse testemunhado em todo o mundo, mas não deixa de afirmar que o digital abriu a caixa de Pandora -- e ainda só estamos no início... Estas imagens aceleraram um processo de inversão: já não são imagens do mundo, elas fazem o mundo e, como são apenas media, de alguma maneira há muito já extinguiram um certo mundo, o mundo dos fenómenos (chuva, vento, carícias, medo, luta, etc.). Restaram pois as imagens e os seus predadores.

Por aqui me fico, com a promessa de voltar para a semana! Até breve!
publicado por Musikes às 10:12 link do post
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