Em cada um reside a fonte da partilha, e seja ela um dom ou não, deixa-me semear no teu ser o prazer da Música. Ela tem inspirado o Homem no revelar o seu pensamento, o interpretar e sentir o Universo ao longo de milénios. Bem vindo!
25 de Setembro de 2014

"A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação." Fernando Pessoa

No "Gotinhas..." desta semana!

"Guitarra portuguesa será sempre um cadáver" Cinco anos depois de "Luminismo", Ricardo Rocha regressa aos discos com "Resplandecente"

A música pimba no palco de Bruno Nogueira Bruno Nogueira chama a Deixem o Pimba em Paz "um espectáculo de desconstrução". E, de facto, quando o ouvimos declamar 24 Rosas, de José Malhoa, em tom de diseur latino romântico ou cantar Azar na Praia, de Nel Monteiro, como se fosse um tema entre o dixieland de Nova Orleães e a música de saloon, ou até mesmo quando Manuela Azevedo (dos Clã) agarra em Sozinha, de Ágata, e a transforma numa canção que poderia ser recuperada do reportório teatral/cabaret de Édith Piaf, percebemos que aquilo a que se chama pimba está a ser desmantelado diante dos nossos olhos e ouvidos.

O Alentejo canta, logo resiste A primeira imagem de Alentejo, Alentejo, o novo filme de Sérgio Tréfaut, é a de um morto. Não que isso seja explícito: é, antes, uma homenagem íntima ao mentor de um grupo de cante alentejano de Pias, que morreu durante a montagem do filme. Mas, sabendo isso, e vendo depois as gerações mais velhas conjugarem sempre no passado - perfeito, imperfeito -, não é difícil concluir: o cante alentejano já não devia existir.

Como a repetição explica por que gosta tanto de ouvir aquela canção Autora do livro "On Repeat: How Music Plays the Mind", Elizabeth Margulis explica como a repetição é um elemento essencial para uma pessoa se deixar envolver com uma peça musical. cropped-886910543 Elizabeth Margulis explica o que amarra o cérebro a uma peça musical

Não, não e... sim (a reflectir sobre...) Algumas referências recentes na imprensa sobre a educação das crianças, as regras e os limites do seu comportamento e ainda o lançamento de uma obra interessante do professor Mário Cordeiro, Educar com Amor, levam-me a umas notas a propósito de algo que considero bens de primeira necessidade na vida das crianças, o "não" e o "sim".

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"Guitarra portuguesa será sempre um cadáver" http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4135288&seccao=M%FAsica

Cinco anos depois de "Luminismo", Ricardo Rocha regressa aos discos com "Resplandecente", surgindo assim três heterónimos que formam com o guitarrista o Quarteto Boreal, responsável pelas peças inéditas para quarteto de guitarras incluídas neste novo álbum. Resplandecente, o seu terceiro álbum, já foi gravado há dois anos mas só foi editado agora. Porquê? Só não saiu antes porque houve uma catadupa de entraves que levaram a que fosse adiado constantemente. Problemas de mercado, envolvendo as regras e as supostas datas ideais para os discos saírem, e com isto o tempo foi passando. As primeiras cinco peças, para um quarteto de guitarras, foram gravadas inteiramente por si. Porque não escolheu outros músicos para formar o quarteto? Eu tentei. Só aconteceu assim porque fui obrigado, porque do ponto de vista da disponibilidade das pessoas que eu queria reunir era inviável. Isto ia exigir muita disponibilidade e dedicação de cada um. Houve imensa vontade, mas não havia disponibilidade física e não podia escolher outras pessoas porque não o conseguiriam fazer. Ao longo destes anos tenho tentado dar uma direção à guitarra neste sentido mais académico e erudito, mas sozinho tenho a noção de que não consigo fazer milagres. Daí ter de me dividir em quatro.

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A música pimba no palco de Bruno Nogueira http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/nem-altar-nem-cadafalso--a-musica-pimba-no-palco-de-bruno-nogueira-1669976

Bruno Nogueira chama a Deixem o Pimba em Paz "um espectáculo de desconstrução". E, de facto, quando o ouvimos declamar 24 Rosas, de José Malhoa, em tom de diseur latino romântico ou cantar Azar na Praia, de Nel Monteiro, como se fosse um tema entre o dixieland de Nova Orleães e a música de saloon, ou até mesmo quando Manuela Azevedo (dos Clã) agarra em Sozinha, de Ágata, e a transforma numa canção que poderia ser recuperada do reportório teatral/cabaret de Édith Piaf, percebemos que aquilo a que se chama pimba está a ser desmantelado diante dos nossos olhos e ouvidos. E se o riso - por se tratar de Nogueira e o arranque se fazer com esse tom inesperadamente enfático de 24 Rosas - ainda sai com facilidade de início, logo se percebe que a presença do humor em Deixem o Pimba em Paz é quase fortuita e trazida sobretudo à tona sempre que emergem criações de Quim Barreiros. "Há temas que são propositadamente engraçados", reconhece Bruno Nogueira ao PÚBLICO. "O Quim Barreiros tem muito disso, desses temas mais brejeiros, com letras muito engraçadas - nem que eu tirasse quatro cursos lá fora conseguiria fazer o mesmo e para ele aquilo é natural." E exemplifica com o refrão que nos ensina que o melhor dia para casar "É o 31 de Julho / porque depois entra Agosto". "Isto, para mim, não é Alexandre O'Neill mas está lá perto", comenta. Depois, há um conjunto de outras canções que "infelizmente para os autores, são tão trágicas que dão a volta e acabam por ser desconfortavelmente engraçadas". "Gosto desse desconforto porque a música não foi feita com esse fim. Essas músicas, de forma um pouco perversa, dão-me um quentinho", confessa. Entre elas incluir-se-á, provavelmente, Vem Devagar, Emigrante um trágico épico familiar da autoria de Graciano Saga que Manuela Azevedo reconhece ter sido "essencial e quase de definição" daquilo que procuravam para o projecto. O projecto nada tem de risível quando Na Minha Cama com Ela (Mónica Sintra) é apresentada com um insuspeito fulgor pop ou Comunhão de Bens (Ágata) se mostra como uma sombria e dramática balada ao piano, tudo cortesia dos arranjos do pianista de jazz Filipe Melo e do guitarrista pop/rock Nuno Rafael (director musical de Sérgio Godinho). A prova de que as cartas se baralham na totalidade é inequívoca nos convidados chamados ao palco: Camané e Marante (cantor do Grupo Diapasão), predisposto a levar o seu tema Som de Cristal para terras de um crooning que Tony Bennett e Jamie Cullum não desdenhariam, numa canção que fazia parte da "fantasia de música pimba" de Nogueira. E que obriga à conclusão de que tudo está nas pequenas escolhas de cada um. Se Marante cantasse habitualmente neste registo a sua imagem pública seria outra. A mesma coisa se tivesse calhado Camané ser vocalista do Grupo Diapasão. "Isto está para lá do humor", defende Manuela Azevedo, colocando Deixem o Pimba o Paz no mesmo patamar de Odisseia, a série que Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington criaram para a RTP. "A maneira de o Bruno utilizar o humor faz-nos olhar para as coisas de forma diferente, é mais desafiante do que parodiante, e acho que quem gosta do trabalho dele gosta dessa vertigem que ele coloca naquilo que faz. Embora haja coisas que nos fazem rir, têm que ver com desconstrução, com rirmo-nos de nós próprios, da realidade e dos clichés de muita gente." Deixem o Pimba em Paz funciona, por isso, como um espelho de efeito duplo virado para o país. Por um lado, celebra de forma descomplexada a sua cultura popular, mais genuína e menos preocupada com aquilo que deve ou não ser, confrontando o público com essa massa de povo de que faz parte (enquanto em palco os intérpretes assumem a sua inscrição nessa cultura, mesmo que torcendo-lhe alguns códigos). Por outro, obriga também cada um a escarafunchar nas suas certezas e nos seus preconceitos. São as subcamadas óbvias debaixo do desejo inicial e simples de montar um espectáculo. "Fizemos isto para nos divertirmos", diz Nogueira. "Não queremos dar lição nenhuma, não há aqui nenhuma moral nem nenhum olhar sobranceiro sobre a música. Não temos vontade nem nos cabe esse papel de evangelizar pessoas para o que quer que seja. Isto não pretende pôr a música pimba num altar nem num cadafalso É só um espectáculo."

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O Alentejo canta, logo resiste http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-alentejo-canta-logo-resiste-1669881

A primeira imagem de Alentejo, Alentejo, o novo filme de Sérgio Tréfaut, é a de um morto. Não que isso seja explícito: é, antes, uma homenagem íntima ao mentor de um grupo de cante alentejano de Pias, que morreu durante a montagem do filme. Mas, sabendo isso, e vendo depois as gerações mais velhas conjugarem sempre no passado - perfeito, imperfeito -, não é difícil concluir: o cante alentejano já não devia existir. Quase todas as expressões de música popular que Fernando Lopes-Graça e Michel Giacometti recolheram nos anos 1960, do Minho ao Algarve, são hoje arqueologia. Que chances de sobrevivência tem um canto colectivo nascido e criado nos rituais do trabalho no campo se a agricultura foi ocupada por máquinas? Com que voz se destrona uma debulhadora? Na era Facebook, que utilidade têm modas cantadas por rapazes às raparigas em bailes? "Sobe acima ó laranjinha,/Dá meia volta ao par,/Ainda tu hás-de ser minha,/Ainda eu te hei-de deixar." Alentejo, Alentejo Realização: Sérgio Tréfaut E o Alentejo é grande, mas cada vez mais vazio. "Pias e Vila Nova tinham mais população dantes, quando eram aldeias, do que tem hoje Serpa, que é cidade", constata Sérgio Tréfaut. A morte é tema tão frequente no cante alentejano que é como se o próprio tivesse preparado o seu requiem. Alentejo, Alentejo abre com uma sequência de rostos: um homem, depois outro, e assim sucessivamente, estáticos como fotografias, de olhar frontal, por vezes desafiante. É como se estes rostos é que estivessem a olhar para nós, mais do que nós a olharmos para eles. É isso: o espectador sente-se olhado. Se fosse um western, esta seria a cena do duelo. O fundo é negro porque é de noite, mas é tentador ver nisso uma metáfora sobre o próprio cante alentejano. O som é de pés a marchar sobre a terra. Zeca Afonso começa a cantar Grândola Vila Morena. Mas o que é isso de "o povo é quem mais ordena" num país que prefere a resignação? Portanto: o cante alentejano já não devia existir. A serenata É fácil esvaziar um tanque de gasóleo no Alentejo porque Sérgio Tréfaut conhece o território como se estivesse em casa. Nascido em São Paulo, no Brasil, filho de um alentejano e de uma francesa, tinha 12 anos quando visitou pela primeira vez o Alentejo. "Senti na pele o abismo que existia entre o mundo cosmopolita em que eu tinha crescido, primeiro no Brasil, depois em Paris, rodeado de exilados políticos, jornalistas e universitários, e o modo de vida pobre de uma pequena aldeia alentejana, onde toda a gente trabalhava no campo e, com sorte, aprendera a escrever o nome depois dos anos 40 anos", escreveu o realizador numa nota de imprensa sobre Alentejo, Alentejo. Muitos dos seus filmes têm uma ligação com o Alentejo: em Outro País (1999) filmou o reencontro de fotógrafos estrangeiros com os lugares que tinham fotografado durante a revolução portuguesa, em particular Baleizão e Pias, no Baixo Alentejo. Fleurette (2002), documentário confessional em que confronta a própria mãe com a sua biografia e história familiar, também tem cenas filmadas no Alentejo. Viagem a Portugal (2011) foi rodado em Serpa, embora a acção se passe no aeroporto de Faro. A sua próxima ficção, que começa a ser rodada em Janeiro, será uma adaptação de Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, inteiramente filmada em Beja. Foi quando filmava Viagem a Portugal que o presidente da Câmara de Serpa, João Rocha (hoje presidente da Câmara de Beja), o convidou para fazer o filme de candidatura do cante alentejano a Património Cultural da Humanidade, apresentada no ano passado à UNESCO, com a duração de dez minutos, e uma longa-metragem. O filme de dez minutos está disponível no site de Alentejo, Alentejo. Embora muitas imagens sejam comuns aos dois filmes, eles são muito diferentes: a curta-metragem é narrada por uma voz off, como um documentário sobre a vida selvagem, que dita informações básicas sobre o cante alentejano. "É uma peça informativa, que cumpre uma função de dar a compreender o cante alentejano a pessoas dos cinco continentes - um tailandês, um guatemalteco, um sul-africano ou um egípcio que, eventualmente, nunca ouviu falar de cante alentejano, nunca ouviu falar do Alentejo, se calhar nem sabe onde fica Portugal", resume Sérgio Tréfaut. O realizador já tinha filmado cante alentejano antes, em Outro País e Fleurette, mas não chegara a incluir essas sequências nos filmes - uma delas com a sua mãe "a chorar baba e ranho numa taberna de Pias, a ouvir cante alentejano". "O meu pai convenceu a minha mãe a vir morar para Portugal pondo uma serenata de cantores alentejanos debaixo da janela dela na primeira noite que ela dormia na quinta [perto de Moura, no Alentejo]", conta. "Sendo que o meu pai é surdo - surdo no sentido de que não consegue distinguir A Marselhesa de nada. Não tem ouvido musical nenhum e não sabe trautear nada. Mas é alentejano. E um sedutor completo." Pode então dizer-se que havia antecedentes, até familiares, que levaram Tréfaut a rodar um filme sobre cante alentejano. "Nunca encarei isso como uma encomenda", diz. As filmagens arrancaram em 2012 e terminaram no final de 2013, com "um ou dois planos" em Janeiro deste ano. O filme não se centra num particular grupo ou aldeia alentejana. São nove os grupos de cante alentejano que figuram em Alentejo, Alentejo, e a diversidade é visível - grupos de homens, grupos de mulheres, grupos de crianças, grupos de jovens - mas o resultado é um retrato de família, comunitário. Este é um documentário que dispensa alguns pormenores mais burocráticos ou informativos (como a identificação dos intervenientes) para poder estar mais perto das pessoas. Pode surpreender ouvir homens depois dos 60 anos a cantarem sobre a mãe ou mulheres da mesma idade a cantarem sobre amores de juventude. Mas não estão a cantar sobre uma experiência individual. Um alentejano não canta sozinho. A ideia inicial era fazer um filme musical, "praticamente sem conversa". Pode-se contar a história do século XX português através do cante alentejano. "Você tem letras sobre o rei D. Carlos, letras sobre a Pide, hinos ao Salazar, muitas coisas da Catarina Eufémia, coisas sobre a ponte Salazar, coisas sobre a Guerra Colonial, depois começa a haver muitas elegias políticas no período revolucionário - 'como é grande o meu partido' e 'a seara de vermelho'", conta Tréfaut. Os grupos de cante alentejano foram instrumentalizados pelo Estado Novo, que os transformou em bandeira do folclore português, controlando o cancioneiro e o traje. "Uma manipulação que não é menor acontece depois, durante o período revolucionário, em que os grupos são muito utilizados como bandeira política", nota o realizador. Grândola Vila Morena, o hino da revolução, é um tributo ao cante alentejano. E o grande boom dos grupos femininos de cante alentejano dá-se após o 25 de Abril, "quando os direitos e o estatuto da mulher estão muito presentes em toda a estratégia política do Alentejo comunista", diz Tréfaut. "O simples facto de mostrar que este universo ou que estas pessoas têm valor é uma maneira de dizer: 'Isto tem valor e a merda que vocês estão a ver na televisão não tem valor'" Sérgio Tréfaut E apesar de a grande maioria de grupos cantar temas tradicionais, cuja autoria e origem se perdeu, também há letras novas, que reflectem a actualidade, como o tema que se ouve no filme, Portugal Está Na Crise. Mesmo que sacrificando o lirismo figurado ou panteísta de outros tempos - não há nada de alegórico numa moda em que se canta: "Neste nosso Portugal/Não sabemos que fazer/Tanta gente na miséria/Nem ganham para comer." Um filme-ensaio Catarina Amador, 80 anos feitos no dia 15 de Agosto, abre a porta da sua casa térrea no Baleizão, terra de Catarina Eufémia, a ceifeira morta à queima-roupa por um GNR em 1954 quando reivindicava um aumento dos salários dos trabalhadores rurais. A televisão, ligada na TVI, é a única iluminação numa sala de estar escura, sem janelas, e daí passa-se para a cozinha, onde o marido de Catarina come sardinhas assadas com salada de tomate. "Se têm mandado dizer, não iam comer a outro lado. Tinha feito aqui uma coisinha boa, uma coisinha à minha maneira", lamenta Catarina. É impossível esquecer Catarina depois de ver Alentejo, Alentejo. Ela é a mulher que conta uma infância dickensiana, de pobreza e fome, enquanto cozinha uma açorda e faz plateias inteiras rirem disso. Ela viu o filme no final de Junho, quando Alentejo, Alentejo foi apresentado em Beja. Quando viu a sua imagem aparecer soltou um "Ai minha mãe, já cá estou!" "Quando eu digo que a gente não usava cueca, [as pessoas que estavam a assistir] mataram-se de festa! Hahahaha! Não podia ser mais bonito do que o que foi." O marido: "Não fui ver, não posso gabar."

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Como a repetição explica por que gosta tanto de ouvir aquela canção http://observador.pt/2014/09/18/como-repeticao-explica-por-que-gosta-tanto-de-ouvir-aquela-cancao/

O que acontece na música de que você gosta que faz com que a queira ouvir novamente?". E "como é que uma canção acaba por conseguir ficar registada na sua cabeça?". Estas são duas das questões a que Elizabeth Hellmuth Margulis, diretora do Music Cognition Lab, responde no livro "On Repeat: How Music Plays the Mind", obra em que a repetição é considerada como um elemento fundamental para que uma pessoa se deixe envolver por uma peça musical. No livro, a investigadora explica como o fenómeno designado "mere-exposure effect" é relevante para que uma canção se vá colando à mente à medida que se torna mais familiar. Um vídeo disponível no TED-Ed resume as conclusões de Margulis e explica como o cérebro reage, fazendo com que quem escuta um tema se entusiasme com aquilo que está a ouvir.

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Não, não e... sim http://www.publico.pt/sociedade/noticia/nao-nao-e-sim-1670294

Algumas referências recentes na imprensa sobre a educação das crianças, as regras e os limites do seu comportamento e ainda o lançamento de uma obra interessante do professor Mário Cordeiro, Educar com Amor, levam-me a umas notas a propósito de algo que considero bens de primeira necessidade na vida das crianças, o "não" e o "sim". Acontece que, por diferentes razões, na vida das famílias, de muitas famílias, parece estar a ser progressivamente mais difícil administrar o "não" usando-se de forma, por vezes excessiva, o "sim", seja de forma mais activa ou apenas por omissão do "não". Tal cenário acaba por estar associado a situações em que as crianças evidenciam grandes dificuldades em perceber as regras e os limites do seu comportamento, uma das funções mais importantes do "não". Como consequência, o comportamento das crianças torna-se despótico, desregulado, transformando-as no "pequeno ditador" de que alguns falam e muitos conhecem, gerando-se situações sociais de grande embaraço para as famílias e climas educativos e relacionais pouco saudáveis entre graúdos e miúdos. Assistimos com muita frequência a cenas bem exemplificativas deste funcionamento, pais envergonhados e impotentes e meninos a fazer o que lhes passa pela cabeça, quando lhes passa pela cabeça. Em muitas circunstâncias, os estilos de vida dos pais, o pouco tempo que têm para as crianças, instalam de mansinho um sentimento de culpa que leva a que os pais, quase sempre sem se dar conta, se inibam, para evitar situações de tensão ou crispação que "estraguem" o pouco tempo que têm para os filhos, de dizer de forma firme e persistente, "não", "não podes fazer isso". Acontece que o "não" inicial desencadeia na criança uma reacção de birra, mais ou menos exuberante, a que os pais frequentemente não resistem e, é uma questão de tempo, o "não" passa a "sim" quase sempre acompanhado de um "só desta vez", "só uns minutos" ou qualquer outra expressão que na circunstância atenue o desconforto. As crianças são inteligentes, percebem muito facilmente quando um "não" é "não" ou quando o "não" passa rapidamente a "sim". E como são inteligentes também aprendem com serenidade as regras e os limites. É, pois, fundamental que os pais se sintam confiantes e usem o "não" de forma adequada, ainda que flexível, sem medos das "birras" ou de perderem o afecto dos miúdos por serem "duros". Na verdade, as crianças precisam dessas regras e dos limites para estabelecer relações de afecto positivas, a sua ausência é que é um risco. Por outro lado, quando se assiste ou se comenta alguns comportamentos das crianças sobretudo quando se trata de birras ou a imposição de desejos ou vontades aos adultos, quase sempre os pais, que com maior ou menor constrangimento acabam por satisfazer, surge com muita frequência a explicação "é dos mimos" ou outra da mesma natureza. Neste tipo de diálogos, "mimos" é entendido quase como sinónimo de "afecto", "amor", "gostar", etc. Tal justificação costuma depois servir para se afirmar a ideia de que as crianças hoje em dia têm muitos mimos que as estragam, dito de outra maneira, têm "afecto" a mais ou ainda "gosta-se de mais" das crianças. Estes discursos parecem-me sempre muito curiosos pois assentam, do meu ponto de vista, num enorme equívoco. As crianças, de uma forma geral, não terão afecto a mais, não me parece que exista "afecto a mais", pode existir "mau afecto". Não é mau por ser "muito", é mau porque asfixia, oprime, não deixa que cresçam. Mas não é este o tipo de situações que leva as pessoas a falar dos mimos a mais. Insisto, as crianças não têm mimos a mais, têm "nãos" de menos, os adultos sendo quase sempre capazes de dar os mimos, muitas vezes mostram-se incapazes de dar os "nãos", de estabelecer os limites e as regras que, insisto, são tão necessárias às crianças como respirar e alimentar-se. Esta dificuldade dos adultos em oferecer os "nãos" às crianças, decorre muitas vezes, como já referi, de algum desconforto culpabilizante sentido com as circunstâncias e estilos de vida que inibem o tempo e a disponibilidade que desejariam ter para os filhos. Ficando sem "nãos", muitas crianças, a coberto do afecto dos pais, transformam-se, de facto, em pequenos ditadores que infernizam a vida de toda a gente, a começar por si próprias. Mas as crianças não têm mimos, afecto, a mais. Nas mais das vezes têm, repito, "nãos" a menos.

"Já agora... Talvez valha a pena pensar nito!..."

E aqui está! O "Gotinhas " volta para a semana!

Até breve!
publicado por Musikes às 11:30 link do post
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